Campo · Goiás
Biodigestores na fazenda: o que produtores de Goiás estão aprendendo na prática
Na BR-060, entre Anápolis e Goianésia, o calor do cerrado bate no telhado de zinco da ordenha às cinco da manhã. É ali que o Seu Geraldo, 58 anos, produtor de leite com rebanho de 80 vacas, decidiu instalar um biodigestor há dois anos. "Vizinho falou que ia acabar com o cheiro do curral", ele ri. "O cheiro diminuiu. Mas o que me prendeu foi a conta de gás e o adubo líquido no pasto de reforma."
A história do Seu Geraldo não é isolada. Em Goiás, estado que concentra grande parte da produção de grãos e pecuária de corte do Centro-Oeste, a digestão anaeróbica em escala familiar e média vem ganhando tração — impulsionada por linhas de crédito rural, visitas técnicas de cooperativas e, digamos, pelo preço do botijão de gás que não para de subir.
Três modelos, três realidades
Visitamos três propriedades com perfis distintos. A primeira, leiteira, usa biodigestor de geomembrana com cerca de 40 metros cúbicos, alimentado principalmente com dejeto bovino e restos de silagem. O biogás abastece o fogão da casa e da copa dos funcionários. O biofertilizante vai para um hectare de braquiária em reforma. O produtor estima economia de R$ 450 a R$ 600 por mês em gás, dependendo da estação — no inverno seco, a produção de gás cai e ele volta a usar parcialmente o botijão.
A segunda propriedade, de grãos e confinamento de gado de corte em Rio Verde, apostou em um sistema maior, com câmara de concreto e gerador a biogás de 15 kW. A ideia era reduzir a conta de energia do confinamento e do poço artesiano. Na prática, o gerador funciona em média seis horas por dia — não 24 — porque a manutenção do motor exige paradas e porque o rebanho em confinamento varia conforme o ciclo de engorda. Mesmo assim, o produtor diz que o investimento deve se pagar em sete a oito anos, não nos três que o vendedor prometeu no início.
A terceira situação é a de uma horta orgânica certificada perto de Senador Canedo, que recebeu um biodigestor compacto via projeto de extensão universitária. O volume de resíduos vegetais e restos de colheita era subestimado no projeto original. Hoje o sistema funciona, mas com produção de gás modesta — suficiente para um fogão de uso intermitente. O ganho principal, segundo a produtora, foi o tratamento dos resíduos sem abrir vala nova no terreno.
O que o folder não conta
Conversando com os três produtores e com o técnico da cooperativa que acompanha 12 instalações na região, alguns pontos se repetem:
- Alimentação constante: biodigestor parado encrusta e perde eficiência. Férias, seca severa ou mudança no manejo do rebanho afetam diretamente a produção.
- Temperatura: no cerrado, o calor ajuda na maior parte do ano, mas noites frias de junho e julho ainda derrubam a taxa de metanização em sistemas pouco isolados.
- Mão de obra: alguém na propriedade precisa entender válvulas, pressão e descarte seguro do efluente. Não é rocket science, mas também não é "instalou e esqueceu".
- Regulamentação: para gerar energia e injetar na rede, o caminho burocrático é outro. Na escala familiar, quase ninguém está falando de vender energia — está falando de autoconsumo.
O biodigestor não é milagre. É ferramenta. Se você não tem volume de dejeto estável, não adianta.
Essa frase é do técnico da cooperativa, não nossa — mas resume o que vimos. Os projetos que funcionam melhor são os que nascem do diagnóstico da propriedade, não da feira de maquinário.
Crédito e assistência técnica
Em Goiás, linhas como o Plano Safra e programas estaduais de sustentabilidade rural financiam parte do capex. Taxas variam conforme enquadramento do produtor e exigência de assistência técnica. O gargalo, segundo entrevistados, não é só dinheiro: é acompanhamento depois da instalação. Projetos com visitas trimestrais nos primeiros dois anos têm taxa de abandono muito menor.
Há também iniciativas de cooperativas de leite que centralizam a compra de equipamento e negociam preço — o que reduz custo, mas padroniza solução que pode não servir para todas as propriedades.
Perspectiva
O biogás rural em Goiás não vai substituir a matriz elétrica do estado amanhã. Mas em milhares de propriedades com dejetos concentrados, faz sentido econômico e ambiental — desde que a expectativa seja realista. O Seu Geraldo, de volta à ordenha, resumiu: "Se eu soubesse o que sei hoje, teria feito menor e deixado margem para crescer. Mas não voltaria atrás."
Para quem quer entender como a digestão anaeróbica se comporta em contexto urbano — com outros desafios de logística —, recomendamos o texto de Lucas Mendes sobre resíduo orgânico nas cidades.